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50 minutos. Duas vezes por dia. Todos os dias da semana.

Portugal é conhecido por ter um dos noticiários televisivos mais longos da Europa. Um feito que até podia ser considerado impressionante, se a quantidade informativa fosse proporcional à qualidade noticiosa. Infelizmente a maior parte das notícias que vemos na televisão apresentam um grau de informação tão baixo que dificilmente nos sentimos mais bem informados no final de cada telejornal.

50 minutos.

Pode parecer muito tempo, mas não é. Há sempre algo novo a acontecer. Sabemos da última discussão no parlamento, da trágica história do homem que matou a mulher, dos últimos resultados do futebol e, com sorte, ainda sabemos algumas curiosidades dos actores que entram na nova novela do canal. Em 50 minutos o telejornal é a companhia perfeita para todas as refeições, sobretudo quando nos dá todos os temas de que precisamos para conversar com os amigos no trabalho.

Duas vezes por dia.

A repetição é uma figura de estilo louvável. Cada vez que aprendemos algo novo a repetição é a ferramenta ideal para aperfeiçoarmos a nossa técnica e para nos tornarmos cada vez melhores. Este tipo de repetição transforma-nos em seres humanos melhores e ajuda-nos a ter uma vida mais significativa. Caminhar todos os dias para sermos mais saudáveis. Desenhar diariamente para nos mantermos criativos. Falar todos os dias com as pessoas de que gostamos para lhes mostrar como são importantes. Isto é o que acontece quando a repetição é usada para nos fazer crescer e evoluir. Quando vemos as mesmas notícias duas vezes por dia não estamos a aprender nada de novo. Somos apenas consumidores de informação em massa.

Todos os dias.

As notícias mais importantes são aquelas que não vemos na televisão. Por todo o mundo há coisas a acontecer que podem mudar o nosso futuro. Estes acontecimentos ocorrem todos os dias mas, infelizmente, os telejornais já tem informação suficiente para passar e as notícias acabam por ficar para outro dia, um dia que nunca chega. Um dos maiores desastres ambientes do século XXI está a acontecer agora na Indonésia mas as televisões não puderam noticiar isso porque a roupa que a rainha de Inglaterra usou na estreia do novo filme do 007 era mais importante. Aquilo que a maior parte dos noticiários considera informativo, muitas vezes não é informação. Assistir a uma discussão no parlamento através da televisão pode dar a falsa ilusão de que estamos a ficar mais informados sobre a situação política do país mas, na realidade, estamos só a ver imagens superficiais sem percebermos o que está realmente em causa. O jornalista português Ricardo J. Rodrigues comentava há umas semanas atrás no Facebook como o jornalismo devia ser uma ferramenta que ajudasse a tornar legível o que é relevante e que ajudasse a criar uma opinião pública mais esclarecida e uma cidadania mais exigente. Ele falava especificamente sobre como as verdadeiras mudanças são feitas por detrás das notícias mediáticas que consumimos. A informação que recebemos diariamente na televisão não é suficiente para nos deixar informados. É preciso apelarmos à nossa curiosidade e ao nosso desejo de lutar pelo mundo e pelo nosso futuro para descobrirmos o que é verdadeiramente importante.

50 minutos.  Duas vezes por dia. Todos os dias.

Este não é o tempo que precisamos para ficar mais bem informados. O conhecimento não é apenas consumível. Para sabermos mais precisamos de nos concentrar mais na qualidade da informação que e menos na quantidade e no tempo. Para isso precisamos de lidar com a informação de forma mais selectiva, minimalista e diversificada porque a repetição não é uma vantagem quando procuramos conhecer o mundo através de perspectivas diferentes.