Entrevistas minimalistas - Rita



Para mim não há nada mais inspirador do que entrevistar alguém que admiro e poder ler em primeira mão as opiniões dessas pessoas sobre os mais variados assuntos. Por esta razão, decidi que uma vez por mês vou entrevistar alguém que admiro para o Minimal. Para começar esta série de entrevistas convidei a Rita do blogue The Busy Woman and the Stripy Cat para me falar sobre minimalismo, consumismo e beleza natural. 



Minimal- Fala-me um pouco sobre ti, sobre os teus valores e sobre as tuas paixões.

Rita - Bem… por onde começar e como resumir? A biografia oficial diria qualquer coisa como Rita, 35 anos, bióloga marinha, doutorada em ciências do mar, investigadora, agora também estudante de psicologia, autora do blog sobre minimalismo The Busy Woman bla bla, mãe de dois rapazes, lisboeta tornada algarvia, pratica yoga, toca piano, adora ler e beber chá.

A biografia oficiosa, mas mais verdadeira, diria que sou uma pessoa complexa. A culpa é minha, pois não me dou a conhecer; sempre me senti diferente dos outros e sinto mesmo que muitas vezes vivo noutro planeta. Por isso, transmito uma imagem errada de mim aos outros. Por exemplo, pareço ser muito racional, mas não sou – cada vez tomo mais decisões baseadas unicamente na minha intuição. Pareço ser extrovertida e gostar de estar com outras pessoas, mas na verdade sou muito introvertida e a interação com outras pessoas suga-me a energia. Gosto de estar sozinha e tenho poucos amigos porque, sinceramente, acho a maioria das pessoas desinteressante. No entanto, acredito no potencial das pessoas, acredito que estamos cá para aprender e para evoluir, acredito que temos o poder de tornar o mundo um sítio melhor. Faço questão de cumprir regras, quando elas fazem sentido para mim; quando não fazem, não tenho problemas em ignorá-las. Acredito na justiça, mas também acredito que cada caso é um caso. Rejo-me pelo meu próprio sistema de regras e valores e, para mim, o mais importante é estar bem com a minha consciência. Embora pareça um rochedo que não é afetado por nada, sou hipersensível.

Sou apaixonada pela simplicidade, pela calma, pelo branco. Não gosto de demasiada estimulação sensorial. Vivo muito no meu mundo interior. Adoro organização, destralhar, repensar necessidades e prioridades. As temáticas da gestão do tempo e produtividade fascinam-me, assim como os estilos de vida alternativos, mais pró-ambientais, menos consumistas. Não faço de propósito para ser diferente, mas sinto-me bem assim e não tento ser mais mainstream só para me enquadrar. 

O mar, o ambiente, a ciência quântica, são disciplinas que me apaixonam. Cada vez me importo menos com o material e mais com o espiritual. O minimalismo foi o início de uma série de maravilhosas descobertas e mudanças que fiz na minha vida. Sou apaixonada pelo yoga, pelo budismo, por livros, por música, pelo piano, por animais, e, claro, pela minha família. Acredito que a vida está a acontecer agora, neste momento, e não no passado ou no futuro. Acredito que o bom ou mau depende apenas da forma como olhamos para as coisas. Acredito que é a nossa consciência que cria a nossa realidade e, por isso, todos temos o potencial de sermos felizes.

Minimal – Ser minimalista não é apenas querer ter menos coisas, é saber definir o que é importante para nós e remover o que é superficial. De que forma é que esta frase se aplica ao teu estilo de vida?

Rita - De facto, ser minimalista não é ter menos coisas – é ter o essencial. O essencial varia, claro, de pessoa para pessoa. Como é que isso se aplica na minha vida? Questionando-me, nos momentos adequados, se uma dada coisa, seja um par de sapatos que vi numa montra ou uma nova responsabilidade profissional, é mesmo essencial para a minha felicidade. Por isso, ser capaz de dizer não, a si próprio e aos outros, é fundamental para o minimalista.

Minimal – Houve pessoas que te inspiraram a seguires a máxima do menos é mais?

Rita - A minha aventura no minimalismo começou quando li Leo Babauta. Depois, fui descobrindo outros minimalistas americanos e comecei a sentir-me imensamente atraída pelo seu estilo de vida. Estas pessoas pareciam ser muito mais felizes que as outras! Tinham menos preocupações, mais tempo, e até mais dinheiro! O “ter mais tempo” foi decisivo para mim. Tinha acabado o doutoramento há pouco tempo, tinha dois filhos pequenos, novas responsabilidades profissionais, várias paixões às quais queria dedicar-me – ter tempo para tudo isto era o meu sonho. E era isto que muitos desses bloggers americanos pregavam acerca do minimalismo. 

Minimal - De que forma é que o consumismo desenfreado das sociedades capitalistas está a tornarmo-nos cada vez mais ligados aos bens materiais?

Rita - Este fenómeno observa-se em Portugal e muitos outros países ocidentais, mas não tanto nos países do norte da Europa, onde a consciência ambiental é maior e a mentalidade, em geral, é diferente e, diria mesmo, mais evoluída. As pessoas querem mais e melhor para meter inveja ao vizinho do lado. Como não estão felizes por dentro, procuram a felicidade lá fora, nas coisas, na admiração dos outros. A felicidade está dentro de cada um de nós, mas isto são ideias muito estranhas na cultura ocidental. As pessoas acham que se tiverem uma boa casa, um bom carro, roupas de marca e gadgets da última geração, vão ser mais felizes. E, claro, as campanhas publicitárias aproveitam-se disto e reforçam esta ideia.

Minimal – De acordo com o teu blogue, começaste recentemente a fazer meditação, tornaste-te vegetariana e iniciaste a prática de yoga. Acreditas que este tipo de mudanças estão ligadas ao teu estilo de vida minimalista?

Rita - O minimalismo abriu as portas para a espiritualidade e para a minha evolução como ser humano. Ao remover muita da tralha física e mental que tinha na minha vida, consegui ver mais além. O minimalismo deu-me mais tempo para mim, para pensar, para refletir, para procurar a felicidade cá dentro. Percebi que devia ouvir a minha intuição, e a minha intuição mostrou-me que o yoga e a meditação faziam parte do meu caminho. 

Minimal - Como investigadora doutorada em ciências do mar e mãe, acreditas que ainda existem estereótipos associados ao estilo de vida minimalista? Como por exemplo a ideia de que os minimalistas não compram nada e que só as pessoas sem filhos é que se podem dar ao luxo de viver apenas com o essencial?

Rita - A maioria das pessoas não compreende o que é o minimalismo, ou tem ideias erradas acerca deste estilo de vida. Ser minimalista não é ser sovina, asceta ou viver em pobreza voluntária. Eu compro coisas! Às vezes, bastantes, até! Mas já não compro só porque sim, porque estou deprimida ou porque vi alguém com uma coisa e quero uma igual. Ser minimalista é pensar duas vezes antes de comprar. As pessoas devem compreender que as motivações dos minimalistas são sobretudo intrínsecas – um minimalista é minimalista porque, basicamente, esse estilo de vida lhe dá prazer. Mas o minimalismo não é um estilo de vida assim tão radical quanto isso! O problema está na definição de “essencial” – o que é essencial para mim pode ser acessório para outra pessoa, e vice-versa. Daí ser impossível medir o grau de minimalismo de alguém ou comparar minimalismos… Cada um sabe de si. Eu diria que uma pessoa é minimalista quando conseguiu eliminar grande parte da tralha física e mental, e faz questão de não deixar entrar mais tralha na sua vida. 

Minimal – Num dos teus últimos posts disseste que leste 38 livros durante o ano de 2014. Quais foram os livros que mais te inspiraram?

Rita - Tantos!... Qualquer livro do monge budista Thich Nhat Hanh é inspirador. Também li Yoga Mala de Sri K. Pattabhi Jois, o mestre do estilo de yoga que eu pratico, e senti uma enorme ligação às suas palavras. Li também uma biografia de uma das mais conceituadas professoras de Ashtanga Yoga a nível mundial e comprovei mais uma vez que quando fazemos as coisas com disciplina e dedicação, a mudança surge e o que queremos, acontece. Li livros de produtividade e gestão do tempo que sempre me inspiram a fazer menos e melhor. Adorei o Equador do Miguel Sousa Tavares – um daqueles livros que não consegui largar. Li vários livros do chamado yoga chick-lit – ficção leve e divertida sobre yoga. E li, finalmente, Siddharta de Herman Hesse, e percebi como é que esta obra pode ser, de facto, uma porta para um novo mundo, especialmente para quem não está familiarizado com a filosofia budista. 

Minimal .  A tua rotina de beleza é quase 100% natural. Quais são os produtos que mais gostas de usar?

Rita - Adoro óleo de coco para hidratar o corpo, muitas vezes combinado com manteiga de karité. No rosto uso sobretudo óleo de ricínio e de amêndoas doces para hidratar, água de hamamélis para tonificar, mel e açúcar ou aveia e amêndoa para esfoliar, e faço máscaras de clara e gema de ovo de vez em quando… Ainda não descobri nenhum shampoo natural que me agrade, mas o vinagre de cidra como amaciador é fantástico!

Minimal – Recentemente tem-se falado mais sobre as vantagens na utilização do óleo de coco para fins ligados à beleza e à higiene. Acreditas que isto pode significar que as pessoas estão a dar mais valor à utilização de produtos naturais no seu dia-a-dia? 

Rita - Quando o mundo não vai bem, as pessoas tentam encontrar alternativas. Vemos isso em relação às sabedorias antigas, como o yoga e o budismo, e também na área da saúde e beleza, com um crescente interesse pelas medicinas tradicionais indiana e chinesa, por exemplo. As pessoas estão cada vez mais conscientes da importância de preservar o meio ambiente, de ter comportamentos mais verdes, de contribuir para o futuro do planeta Terra, e, ao mesmo tempo, de terem comportamentos mais saudáveis como forma de prevenir problemas de saúde. E, naturalmente, o uso de produtos naturais ao invés de produtos artificiais ou potencialmente prejudiciais para o ambiente, é um dos resultados dessa maior consciencialização. 

Minimal – Para terminar, quais foram as principais vantagens que encontraste desde que começar este estilo de vida mais natural, espiritual e minimal?

Rita - Ganhei mais tempo, mais saúde, mais produtividade, mais conhecimento sobre mim mesma e o mundo que me rodeia. Se quisermos resumir – mais felicidade. Sou, de facto, mais feliz assim.



13 comentários:

  1. Gostei muito da entrevista! Sou leitora do blog dela desde 2012 e me trouxe muitas reflexões! Obrigada

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  2. Gostei da entrevista, mas acho que a definição do termo minimalismo trás problemas muito graves de articulação teórica. Não quero ser chata, mas acho que o complexo mundo do consumo não abre espaço para generalizações e ingenuidade, e quando um conceito não é desenvolvido com profundidade e pertinência, ele tende a ser encarado como mais um modismo passageiro do qual a indústria do consumo se alimenta.
    Enfim, é um assunto que rende...mas, independente disso, gosto muito do seu trabalho! :-)

    Marianna

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    1. Olá Marianna, infelizmente isso acontece com quase tudo. Como tu dizes, o mundo do consumo é tão complexo que as alternativas a este mundo são muitas vezes criticadas ou então transformadas elas próprias em bens de consumo.

      Obrigada pelo teu comentário :)

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    2. Como é que direccionas o consumismo (não o consumo) para o pessoal minimalista? Eu acho que não é possível. Por definição, um minimalista não vai querer comprar coisas só porque tem um certo estilo. Compra porque lhe vai ser útil e é algo que realmente acrescenta algo à sua vida.

      Quanto muito, as empresas podem voltar-se para produtos com melhor construção e mais duradouros, isso sim é algo que um minimalista pretende.

      E depois ainda há uma questão importante. Eu acho que o minimalismo nunca vai ser moda, pelo menos como estilo de vida. As pessoas gostam demasiado de ter mais e exibirem-se para que este estilo de vida fosse algo adotado em massa.

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  3. Gostei muito Inês :) também já sigo a Rita à alguns anos mas acho que foi a primeira vez li alguém (além de mim) a dizer que acha a maioria das pessoas desinteressantes - e sei que não é por mal.

    Beijinho
    Adriana

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    1. Olá Adriana, obrigada pelo teu comentário, ainda bem que gostaste :)

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  4. Amei!! Por coincidência tenho os 2 blogs como leitura diária. Adorei a junção dos dois!

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Faço minha sua palavra, Rita! Como me sinto assim! ..."A culpa é minha"..., "pois não me dou a conhecer"; sempre me senti diferente dos outros e sinto mesmo que muitas vezes vivo noutro planeta. Por isso, transmito uma imagem errada de mim aos outros. Por exemplo, pareço ser muito racional, mas não sou... Essa e muitas outras de suas palavras se encaixa bem. Muito bom, poder ler tudo isso por aqui! Adorei o blog

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