Acordar a perder

Na última quarta-feira o mundo acordou em sobressalto. Ainda estava deitada quando ouvi um "Oh não" e soube de imediato o que tinha acontecido. Ele ganhou. Durante o resto do dia senti que arrastava uma nuvem de dúvidas comigo. Como se estivesse a assistir a algo mau, a um daqueles momentos que ficam na história pelas piores razões. Trump ganhou, Hillary perdeu,e eu nunca antes me tinha importado com as presidenciais de um país que raramente me impressiono pela positiva. Mas, desta vez, não só tinha seguido as eleições como estava informada sobre os candidatos, as sondagens e as promessas. Ou pelo menos assim eu pensava. 
Muitos se perguntam como é possível ele ter ganho. Fácil, ele teve a maioria dos votos necessários. O que me partiu levemente o coração foi não saber antes que isso ia acontecer. Trump foi retratado nos meios de comunicação como um bobo da corte, via caricaturas a mostrar o ridículo das suas afirmações quase diariamente mas nunca ninguém escreveu sobre as multidões que o seguiam, ninguém nos avisou que os milhões que o idolatravam conseguiriam fazê-lo chegar a presidente. Ele ganhou e com ele os meios de comunicação perderam, as sondagens perderam, as pessoas perderam.
Eu pensei que estava informada. Eu acreditei, inocentemente, que quem grita mais alto, quem ofende mais, perde. O filósofo Zizek disse que Trump precisava de ganhar para o mundo poder acordar. Dar um passo atrás para dar dois passos à frente. Eu só lamento profundamente as trevas que se vão viver antes de conseguirmos ver a luz. 
Costumo dizer que as pequenas decisões que tomamos têm o poder de mudar o mundo. Cada vez que gastamos dinheiro, estamos a votar no tipo de sociedade em que queremos viver. Esta eleição mostrou-me que não basta desejar que tudo aconteça pelo melhor, é preciso mostrar interesse, tomar decisões, combater a indiferença. Quarta-feira a dignidade e o respeito acordaram a perder. Agora está na altura de fazer a bondade, a igualdade e o conhecimento ganhar.


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Gratidão

Considero-me uma pessoa grata. 
Bebo a minha chávena de chá em silêncio, enquanto aprecio esse pequeno prazer matinal. Aprecio cada segundo do meu tempo que é passado com família e amigos. Sento-me ao computador a escrever e penso na sorte que tenho por poder fazer aquilo que gosto, viver num lugar seguro e sentir-me bem em relação a quem sou. 
Há três dias atrás, senti também a necessidade de vos agradecer. Àqueles que lêem o que escrevo e se sentem inspirados por aquilo que partilho. Sem este apoio que atravessa oceanos, teria menos um motivo para me sentir grata.
Por norma, os números não me impressionam. Não passo os dias a contar seguidores nas redes sociais ou a debater-me sobre como aumentar as estatísticas do meu blogue. Mas sinto-me feliz por saber que ao longo dos anos houve muita gente que veio parar ao meu blogue de forma espontânea. Sem truques, armadilhas ou falsas promessas. Quando criei o Minimal, o meu objectivo nunca foi torná-lo num blogue de sucesso. Antes pelo contrário, eu queria que ele fosse um lugar seguro. Um recanto escondido na internet onde pudesse partilhar aquilo que gosto sem a pressão do julgamento ou a expectativa da aceitação. Anos depois, estou feliz por continuar a seguir os meus princípios e por o Minimal continuar a ser o lugar que eu sempre desejei que fosse. Este ano decidi ir mais longe ao criar a Nevoazul. Costumo descreve-la como uma revista sobre menos e mais, um convite ao equilíbrio, mas agora percebo que é mais do que isso. É um apelo à gratidão.
Quase sem saber, e ao longo dos últimos longos meses de trabalho, a gratidão foi o que deu vida à Nevoazul. Sem este sentimento de profunda gratidão em relação àquilo que me rodeia, ela não seria possível. Porque no final, ela não é uma revista sobre minimalismo, mas antes um lugar onde podem encontrar histórias daqueles que estão gratos por aquilo que têm, são e fazem. 
Sem desejos de mais ou de menos, apenas com a leve felicidade de encontrar a gratidão entre a simplicidade.





Como agradecimento, quero dar-vos a oportunidade de conhecerem a Nevoazul por um pouco menos. Só precisas de usar o código obrigada1045 até à meia-noite de hoje para teres um desconto de 5€ na compra da revista.


Obrigada
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Aprender a descansar



Pés cansados. Mãos frias. Cabeça em água. Oito horas de trabalho depois, o corpo pede descanso. Atirar os sapatos. Procurar o sofá. Televisão ligada, telemóvel na mão. O início e o fim da noite está mais do que planeado, está determinado. Haverá tempo para ler, correr, passear e conversar mais tarde. Talvez amanhã, talvez terça-feira.
Nós, humanos, somos criaturas de hábitos, dos bons e dos maus. Somos capazes de organizar o dia de trabalho ao minuto, mesmo antes de começar. Escolhemos o que vestir, preparamos o pequeno-almoço do costume e seguimos o caminho de sempre. As oito horas seguintes são um sem fim de tarefas a concretizar, sítios onde ir, coisas a fazer. Ao fim do dia merecemos descanso.
O descanso é frequentemente usado como um sinónimo de inércia, de não fazer absolutamente nada e acreditar que nos vamos sentir bem a seguir. Eu gosto de estar confortável no sofá a ver uma série após um dia atarefado mas, na maioria das vezes, estar sentada a olhar para um ecrã é a última coisa que me apetece fazer. O hábito de chegar a casa e entrar automaticamente em modo preguiça com os olhos vidrados no feed do Facebook, não é sinónimo de descanso para mim.
Fala-se muito do minimalismo associado a coisas e objetos mas ser minimalista é sobretudo priorizar o nosso tempo e dar importância àquilo que é bom para nós, mesmo quando estamos a descansar. O meu tempo de lazer segue a máxima do corpo sã, mente sã. Vou nadar ao fim da tarde, leio ao início da noite. Passo a tarde a escrever, dedico a noite ao ioga. É um jogo de equilíbrio onde há sempre mais variáveis. Ouvir os meus discos preferidos, conversar, caminhar em ruas desertas, rever amigos, beber chá com limão, fazer panquecas à meia-noite.

Há quem diga que devíamos organizar o nosso lazer, eu acho que só precisamos de o aproveitar.
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Qualidade e simplicidade: A minha rotina de beleza




“O que é a elegância? Água e sabão!” – dizia Cecil Beaton.
Não poderia concordar mais. Há uma certa elegância em conseguir encontrar a beleza na simplicidade, em tornar algo comum, como a água e o sabão, estrelas na nossa rotina de higiene e limpeza. Casas de banho cheias, repletas de produtos, cosméticos, batons e máscaras não são mais do que tentações consumistas, compras erradas e desejos de ostentação. Por outro lado, acho incrivelmente belo quem consegue permanecer fiel ao que é verdadeiro, honesto e simples. Quem consegue encontrar na pureza da água tudo o que precisa para se sentir elegante.
A minha rotina de beleza ainda não chegou a esse minimalismo e acho que não desejo que isso aconteça tão cedo. O tempo que passo a cuidar da minha pele é quase meditativo. Os produtos e ingredientes que uso são comuns, é como se estivesse a preparar-me para cozinhar, mas as fases do processo ajudam-se a começar e a terminar o meu dia com tranquilidade.


ÁGUA PELA MANHÃ
Depois de acordar, água é tudo o que eu desejo. Um copo para a beber, as mãos para a levar ao meu rosto. Costumo passar pelo menos cerca de 1 a 2 minutos a lavar a cara. Como não utilizo nenhum tipo de sabão tenho de garantir que a minha pele fica devidamente limpa. A seguir limpo o rosto com uma toalha sem nunca esfregar.


MÁSCARA DE MEL E CANELA
Como trabalho a partir de casa, posso dar-me ao luxo de trabalhar a manhã inteira com uma máscara de mel e canela na minha cara. Para isso, mistura cerca de duas colheres de sopa de mel orgânico de acácia com um pouco de canela. Tenho andado há muito tempo a querer experimentar o mel manuka mas é tão caro que ainda não tive oportunidade de o fazer. Por vezes também acrescento uma gota de óleo essencial de tea tree à mistura.


WILD FRUIT SERUM
A primeira vez que experimentei um sérum foi na semana passada. Antes disso não sabia o que era, para que servia, nem como isso podia ajudar a minha pele. Mas quando vi que a Annmarie Skin Care, a minha marca preferida de cosméticos, ia lançar um sérum à base de frutos e extratos de plantas fiquei curiosa. Descobri depois que esse produto servia para hidratar e iluminar a pele e que continha alguns dos melhores óleos que existem para manter o equilíbrio da pele sem a prejudicar. Alóe vera, extrato de maça, calêndula, gotu kola, óleo de sementes de romã, óleo de açaí, um sem fim de ingredientes autênticos que dão à pele as vitaminas que precisa para se auto-regenerar. Quando a minha amostra chegou, decidi que a melhor altura para utilizar este produto seria depois da minha máscara e assim fiz. Passado cerca de duas horas, lavei o mel e a canela do meu rosto e, depois de limpo, coloquei um pouco deste sérum no nariz, testa e queixo e espalhei pelo resto da minha cara, massajando a pele. O cheiro faz lembrar o verão e a pele absorve-o instantaneamente e fica apenas luminosa e limpa durante o resto do dia.



ÓLEO PELA NOITE
O dia está a terminar e o cansaço ameaça chegar. Enrolar-me nos lençóis e adormecer parece uma boa opção mas não o posso fazer sem antes limpar as preocupações do dia e preparar a minha pele para uma noite de descanso. Ao contrário do que acontece de manhã, há noite não lavo a cara com água. Em vez disso, faço uma limpeza com óleo de argan. Coloco um pouco na palma da minha mão e espalho pelo rosto, massajando as bochechas, fazendo movimentos circulares e garantindo que o óleo é absorvido. A seguir coloco uma toalha debaixo de água quente e, depois de tirar o excesso de água, deixo-a repousar na minha cara. Este ritual limpa a pele em profundidade enquanto equilibra a produção de óleo. Os vapores libertados pela toalha quente no rosto deixam-se sempre mais calma e preparada para dormir. Passado cerca de 5 minutos, uso a mesma toalha para limpar a pele e estou pronta para descansar.


Não é preciso muito para tratar bem a pele, só precisamos de a conhecer bem, de lhe reservar um pouco do nosso tempo e alimentá-la com ingredientes que sejam tão bons que quase que se podem comer.
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A beleza está no interior


A beleza está no interior. Uma frase comum, quase cliché, mas que cada vez se ouve menos. Talvez porque se transformou numa espécie de mito, num ideal utópico tão distante dos valores da sociedade de consumo que dificilmente tem aplicação prática.
Também eu subestimei essa ideia. Quem poderia acreditar em tal frase quando somos influenciados socialmente desde crianças a apresentarmo-nos no nosso melhor? Além disso, não seria contraditório se o nosso exterior não estivesse em sintonia com a beleza interna que tanto queremos exibir?
Quase me envergonho de admitir que só há pouco tempo é que percebi o verdadeiro significado desta frase. Durante anos vi a minha pele como uma tela para experimentar cremes e cosméticos, ignorando o facto de ela ser uma ligação, uma membrana, entre o nosso corpo e o mundo que nos rodeia. A poluição, os raios ultravioletas e a ansiedade fazem o corpo reagir negativamente e a pele é o seu meio de comunicação preferido para transmitir a mensagem.
Dizer que a beleza está no interior não é apenas uma metáfora para a importância da personalidade, é uma chamada de atenção para a nossa saúde. Enquanto escrevo estas palavras tenho uma máscara de mel e canela na minha pele. Não por mera vaidade, mas como forma de limpar e cuidar do meu rosto com ingredientes suaves que não vão intoxicar o organismo. Antes, quando uma borbulha aparecia, eu comprava novos produtos que prometiam ser melhores, mais eficientes, com resultados em 4 horas. Um autêntico milagre numa embalagem de plástico. Com o tempo percebi que essa solução era efémera e prejudicial para o equilíbrio da minha pele. Agora, quando vejo uma nova borbulha não olho para o exterior, mas para o interior. Revejo a minha alimentação, acalmo a minha mente e deixo a minha pele respirar. Quando se trata da nossa saúde, há pequenas mudanças que conseguem ajudar o corpo a curar-se naturalmente.
Para mim isso foi aceitar a minha pele com todas as suas imperfeições e peculiaridades. Continuo a não gostar quando às vezes aparece uma nova borbulha mas agora compreendo que o nosso corpo é um organismo complexo, difícil de perceber e impossível de controlar. A única coisa que podemos fazer é trata-lo da melhor forma que conseguimos. Isso não implica comprar produtos caros e ter um armário cheio de cosméticos orgânicos. Também no que diz respeito à pele, a simplicidade é a melhor solução e por vezes ela está mesmo ali, no armário da cozinha.


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Ponderar em vez de comprar

Não falarei de poupanças, da carteira sempre vazia, do dinheiro que faz falta. Isso é comum, escolhas sem resposta certa, paradoxos de um dia-a-dia que quase todos conhecemos. No final, é sempre armas ou manteiga, o clássico dilema económico onde gastar mais dinheiro num implica que há menos para gastar no outro. Mas como eu disse, não falarei de preços, promoções ou balanças. Este texto é sobre ponderação ou, simplificando, apenas sobre a palavra não. 

Namorar lojas é uma espécie de desporto. Passeia-se só por passear. Aproveitar a brisa, pôr a conversa em dia. Mas quando as montras aparecem, os diálogos mudam de tom e as mãos ocupam-se com tecidos e vestidos, camisolas e sacolas. Tudo é bonito e cai bem. 10 segundos e estamos em êxtase numa fila de espera.  Aquele foi certamente o melhor acontecimento do dia. 


 C A L M A


Não há oportunidades únicas e promoções imperdíveis. O mundo não parará de rodar se um casaco esgotar. Por vezes é difícil lembrarmo-nos disto no meio do turbilhão de compras e do entusiasmo que sentimos ao adquirir algo novo e diferente. É uma armadilha onde é fácil cair, mas não passa disso, uma pequena armadilha. Se cada segundo de pressa e de espontaneidade no momento de comprar for substituído por 24 horas de ponderação estamos a ofereceres-nos tempo para pensar. E isso acaba por ser a melhor coisa com que poderíamos chegar a casa. Incontáveis vezes, encontrei-me no mesmo cenário. Um vestido bonito, algo que tinha de ser meu, uma camisola que não podia deixar na loja. Mas depois eu espero. Espero pela calma, por chegar a casa, por conversas. Eu durmo com a mente noutras coisas, acordo a pensar nas tarefas do dia. Preparo o almoço e o jantar. Passeio pelo parque, nado no rio, esqueço aquilo que, ainda ontem, era essencial para mim. Mas depois existe o  efeito contrário, aquele que devemos ouvir. A camisola preta que faz falta todas as manhãs. A camisola preta, com a sua gola alta, que aqueceria o meu pescoço nos dias frios. A camisola preta de gola alta e corte cintado que ficaria bem por dentro da saia. Estes são os apelos consumistas a que eu dou ouvidos, aqueles que surgem quando estou em casa, aqueles cuja falta se sente de estação para estação, aqueles que a última moda não derrotou.

Ser ou não ser. Comprar ou não comprar. Dois verbos cada vez mais complementares. Eu compro logo sou. Tu és porque compras. Esperar, pensar e ponderar é apenas dar a voz ao verbo ser, antes de nos precipitarmos a pronunciar a palavra comprar.


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Diário de Agosto

Agosto era o pior mês. Pelo menos costumava ser. Os dias eram cansativos, aborrecidos. Calor demais, actividades a menos. As aulas ainda demoravam a começar e o entusiasmo das férias já tinha sido substituído pela monotonia. Mas o que era, nem sempre será. Este ano não houve um dia por preencher. Cada hora foi aproveitada plenamente. Ler à sombra, ouvir música no comboio, escrever postais e nadar no rio. Sempre fui uma rapariga de inverno e Setembro sempre será o meu maior amor, mas, este ano, Agosto roubou a minha atenção e um pouco do meu coração.



LIVROS

Não vejo noticiários na televisão, mas o jornalismo é dos meus maiores interesses. Quando estudava na universidade, havia sempre um pequeno excerto do Eça de Queirós que costumava aparecer nos meus apontamentos. Era do livro Cartas Familiares e Bilhetes de Paris e falava da relatividade das notícias e de como os acontecimentos longínquos significam menos para nós do que aquilo que nos é próximo. Nunca me revi nesta realidade. Por mais interesse que tenha por aquilo que me rodeia, a minha curiosidade está no que desconheço. Talvez seja por isso que a jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho é das minhas escritoras preferidas. Ela viaja do Afeganistão ao Brasil, do México à Síria. Vê o bom e o mau e relata-o com uma vivacidade que quase nos faz acreditar que estamos ali, mesmo ao lado dela, a cheirar as rosas de Cabul, a tremer ao som das bombas no Líbano. O livro Caderno Afegão foi dos meus favoritos e este mês decidi continuar a viajar através das leituras dela. De dia, via os jogos Olímpicos no Brasil, à noite lia sobre esse belo país cheio de contrastes no  seu livro Vai Brasil. Em tardes de calor, quando tudo o que desejava era uma sombra e uma bebida fresca, trocava o jornalismo pelo romance e lia E a noite roda, também da Alexandra Lucas Coelho. Acho que ela foi a minha obsessão de verão, mas tenho a certeza que me fará companhia no Inverno.


MÚSICA

Não gosto de escrever sobre música. Descrever sonoridades, analisar acordes e romantizar letras não é para mim. O que eu gosto de fazer é ouvir. Fechar os olhos, adormecer a minha mente e deixar-me envolver na beleza de uma música. As que não saíram da minha cabeça este mês foram She's so lovely dos Beach House, Middle Names do Devendra Banhart, Tuyo do Rodrigo Amarante e o albúm O Grande Encontro de Toquinho, Vinícius e Maria Creuza.






TRABALHO

O cheiro das tintas, do azul no papel, das máquinas que não param. As folhas soltas, os testes de cor, os erros que se escondem. Re-ler e rever. Re-escrever e compor. Assim foi este mês. O Agosto quente, os pés em água doce, a cabeça em roda. Noites longas, dias sem fim. Andar para trás e para a frente. Ir ao norte, correr para sul. E no fim a paz, em forma de papel. A Nevoazul, a minha revista sobre menos e mais, finalmente nasceu. Seis meses em 120 páginas. Uma ode ao minimalismo, à cultura e à sustentabilidade.




YOUTUBE

Este mês sinto que passei mais tempo do que é costume a ver vídeos no Youtube. Comecei a ver a mini série da Vogue What on Earth is Wellness?, onde a modelo Camille Rowe fala com neurocientistas, nutricionistas e psicólogos sobre o que é o bem-estar e como o podemos atingir. Também comecei a seguir o canal Vox que aborda temas da actualidade e nos esclarece sobre ciência, educação, história e cultura em pequenos vídeos de cerca de 15 minutos.


Espero que o vosso mês de Agosto tenha sido tão agradável e completo como foi o meu.

Obrigada


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Sem mais, nem menos

Pergunto-me, frequentemente, se deveria escrever mais sobre subtracções.
Começaria por escolher as variáveis e aplicaria esse fórmula maravilha a tudo o que me lembrasse. O menos tomaria conta do armário, da cozinha, da sala e, quem sabe, até das pessoas. Tudo o que restaria seria o fundamental. Um conceito que se definiria com base naquilo que eu, e apenas eu, considero essencial. Poderia escrever sobre isso. Contar como há mais espaço à minha volta, falar sobre o que doei, apaguei e eliminei, mas ando distraída. Como posso escrever sobre as vantagens da subtracção, quando os meus dias estou envoltos em conversas que não quero que acabem, experiências que me abrem os horizontes e sítios que me fazem ansiar por mais, e não por menos.

Cheguei à conclusão que não o poderia fazer.

Por isso,

sem mais, nem menos,

faço deste texto uma espécie de nota de apresentação ao que está para vir.

Aos momentos que enchem os meus dias.

Aos recantos que me enchem de inspiração.

Ao conhecimento, à calma e à beleza. 


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Sentidos



As minhas escolhas definem-se através dos sentidos. Pequenas intuições, fragmentos de uma força que, como um íman, me guiam em direcção àquilo que sinto ser correcto, bom, significativo. Pode-se dizer que me deixo levar pela consciência mas o contrário é mais correcto. Os pensamentos que percorrem a minha mente, a noção do que é certo e errado, os caminhos que sigo e os que deixo para trás. Tudo isto não é mais do que uma consciência educada, atenta e curiosa. Eu quero conhecer o que me rodeia, saber quem fez as minhas roupas, enumerar os ingredientes dos produtos que uso. O mundo está cheio de relativismos e, em algum momento, todos nós já concordamos em discordar, mas orgulho-me de estar em sintonia com os meus sentidos - a consciência das minhas acções.
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Por um futuro melhor

Os dias vêm uns atrás dos outros, como as cerejas que comi ao longo da amena primavera que alegrou as minhas horas de trabalho. As manhãs depressa se tornavam tarde e a noite não era mais do que a antecipação da madrugada. Entretida e fascinada com o que me rodeava, decorei as paredes brancas da minha casa e fiz delas mural para a minha inspiração. As montanhas sem fim, o design invejado, a escrita de uma velha lenda. Símbolos de um ideal de qualidade a alcançar. 
Os discos giravam no gira-discos sem nunca me aborrecer por ouvir sempre as mesmas cantigas. Excepto à noite, nas horas do descanso, onde a falsa luminosidade dos computadores dava lugar a conversas sussurradas, livros da Patti Smith e filmes do Godard.
Houve dias em que acordei às quatro da manhã para filmar o reflexo da lua cheia na água e para estrear a areia da praia antes do início do verão. Houve noites em que escrevi até às duas da manhã, quando os olhos já pediam descanso mas o entusiasmo exigia trabalho.
As ideias desenvolviam-se, os nomes mudavam, o conteúdo nascia. O minimalismo perdeu a sua pureza e misturou-se com a arte. O consumo cedeu à literatura, a sustentabilidade à cultura e o desejo de criar um futuro melhor que o presente nasceu.
Cedi assim ao idealismo e rendi-me às artes. Sujei as mãos de tinta azul e fiz gravuras do Stonehenge. Escrevi sobre técnicas de restauro ancestrais, elogiei a impermanência e entrevistei aqueles que encontraram equilíbrio no minimalismo e na simplicidade.
Apesar de vivemos numa era onde a velocidade, a abundância e o desperdício dominam, eu acredito que chegou a hora de dar uma nova oportunidade à eficiência, à criatividade e à qualidade.
Este foi o início da NEVOAZUL - uma revista sobre menos e mais, onde o consumismo, o minimalismo e a sustentabilidade se cruzam com a cultura, a literatura e a arte.


Numa cultura motivada pelo consumismo e pela memória, o primeiro número da NEVOAZUL reflete sobre as vantagens de aceitar a impermanência como catalisador de uma vida mais simples e significativa. Nas suas páginas vão poder descobrir como o algodão orgânico melhora a vida dos agricultores, as razões porque o Einstein era um minimalista,  a arte ancestral do Kintsugi, pinturas feitas com materiais vulcânicos que simbolizam a beleza e a fragilidade da natureza, um artigo sobre uma rede social onde tudo  o que partilhamos expira em 24 horas, a história da youtuber Aileen Xu responsável pelo canal Lavendaire e muitos mais artigos, entrevistas e ensaios.







Com esta revista eu quero abrir um debate sobre como a responsabilidade social, a sustentabilidade e o consumo ético podem fazer a diferença no nosso futuro. Espero que esta revista desperte o teu interesse tanto como tem despertado a minha vontade de ser criativa, de escrever e de mudar o mundo que me rodeia por uma versão mais simples mas significativa. 

Prometo que cada uma das páginas da NEVOAZUL vai ser um convite a um quotidiano com mais conversas e menos compras, mais passeios e menos ansiedade, mais conhecimento e menos informação. O meu maior desejo é que esta revista seja um porto de abrigo para todos aqueles que aspiram a uma vida mais simples mas significativa.

Obrigada!




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O minimalismo em reiniciar

Escrever não estava nos meus planos para esta tarde. É sábado e o sol está a brilhar lá fora, mas eu já tinha decidido que a tarde seria dedicada aos louvores do trabalho. Eu costumo ficar feliz com as minhas horas sentada a escrever, a gerir as redes sociais e a editar os textos da NEVOAZUL, mas hoje a minha mente não parecia preparada para lidar com todas estas tarefas. Tento concentrar-me e completar os meus objetivos calmamente mas eles multiplicam-se constantemente e eu fico submersa num mar sem fim de tarefas por completar.

Ainda me surpreendo com a facilidade com que infringimos o nosso equilíbrio num dia ocupado. Nós justificamo-nos junto da nossa consciência e dizemos que estamos só a terminar um documento, mesmo quando já passaram três horas e a lua é a nossa única fonte de luz. Quando se gosta do que se está a fazer é fácil confundir o trabalho com o lazer e fazer do equilíbrio uma linha recta onde as horas são uma continuação incansável das mesmas tarefas. 

Respiro fundo e deixo o meu corpo e mente ceder ao descanso e reiniciar. Fechei o browser com os seus dez separadores abertos. Guardei o artigo que estava a escrever. Parei de pensar em tweets, campanhas de social media e emails, arrumei os papéis há minha volta e dei-me autorização para aproveitar o sol e saborear a calma do fim de tarde. 

Amanhã começo do início. Sem excessos informativos, nem objetivos para cumprir. Apenas pequenas tarefas que vão ser executadas ao sabor do vento.
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Diário de primavera



Abril foi o primeiro mês. Os primeiros trinta dias dedicados a fazer aquilo que mais gosto. Deixei a minha velha rotina, mudei de hábitos e comecei a minha revista, a NEVOAZUL. Entretanto eu li, ouvi música e explorei o meu lado mais criativo. Acho que nunca trabalhei tanto. Houve dias em que acordei às cinco da manhã para ir tirar fotografias, escrever poesia, fazer entrevistas e reportagens. Passei noites a ler Patti Smith, a ouvir discos e a folhear revistas.
Este post é um pequeno diário desta primavera. Uma estação em que as horas passaram com serenidade e o trabalho foi tão apreciado como o lazer.

Música

Começar a ouvir um novo artista é algo raro para mim. Sou uma pessoa de hábitos, repetições e amores constantes. Mas este mês descobri o Deru e soube quase instantaneamente que ele ia fazer parte da minha restrita biblioteca musical. Deru é um produtor de música electrónica também conhecido como Benjamin Wynn que explora novas sonoridades baseadas em acordes clássicos. As suas músicas têm uma espécie de beleza nostálgica que preenche discretamente o espaço envolvente sem nunca incomodar. Tenho ouvido sobretudo o álbum 1979, uma cápsula do tempo, uma meditação sobre nostalgia. De acordo com o artista, a memória é uma das nossas maiores dádivas. Ela dá-nos acesso ao tempo, à identidade, aos sonhos e o álbum 1979 é uma celebração disso.

Artes

No início de Abril tive oportunidade de experimentar fazer gravura, uma técnica onde se consegue obter uma imagem através de um processo de impressão artesanal. Apesar de usualmente se utilizar uma chapa para fazer o desenho, nós usamos o interior de pacotes de leite para desenhar. Depois do desenho estar terminado faz-se um leve corte sobre o desenho e preenche-se a superfície com tinta. Coloca-se depois na prensa para transformar a imagem numa gravura.


Leituras

Ao longo deste mês li o livro Wabi Sabi - The japanese art of impermanence. Um pequeno livro que me permitiu compreender melhor o significado de efemeridade, imperfeição e transição. Conceitos enraizados na cultura japonesa que explicam como os prazeres da vida estão associados à aceitação da brevidade da vida e à apreciação das pequenas coisas que nos fazem felizes. 



Sítios

A praia de Leça da Palmeira ao amanhecer. A rota do chá onde descansei depois de um dia de trabalho. As casas históricas onde outrora a nobreza passeou. O atelier de desenho onde dormi. As paisagens que passam a correr ao meu lado cada vez que regresso a casa. 


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Simplicidade e modernidade



O actor e realizador Jacques Tati, um dos grandes mestres do cinema francês, utilizou cenários em cores pastéis e música instrumental para criticar a sociedade moderna, o materialismo e o uso implacável das tecnologias.
Monsieur Hulot, o “alter-ego” de Jacques Tati, é uma personagem frequente nos seus filmes. Uma alma antiga que usa chapéu, sobretudo, cachimbo e guarda-chuva mas que vive num mundo ansioso pelo futuro e pela mudança. No filme “Mon oncle” o Monsieur Hulot é o único membro da família Arpel que não se encaixa na mentalidade de consumo em que eles estão mergulhados. 
Hulot vive na parte antiga da cidade, onde as crianças brincam na rua, os vizinhos se conhecem e a simplicidade reina. A sua irmã vive na periferia, do outro lado do muro em ruínas, numa casa tão futurista que tudo é esteticamente apelativo mas nada é prático. Hulot vê-se perdido neste mundo onde a tecnologia é retratada como um paradoxo e a procura pela simplicidade, limpeza e inovação resulta na complexidade, apatia e caos. O exemplo perfeito da escravidão moderna em que o automatismo das máquinas acentua a falta de genuinidade das relações sociais. 
Ao retratar as marionetas da indústria cultural, este filme simboliza o início de uma geração que preferiu o consumo da novidade ao consumo de necessidade, o exibicionismo às vivências. O filme Mon Oncle pode ter sido lançado em 1958, como uma sátira ao conceito de modernidade tecnológica na vida familiar dos anos 50, mas é mais actual do que nunca. 


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O vagaroso caminho para a simplicidade

Ontem
eu comprei
algo novo

mas

contrariamente 
ao que eu 
pensei

os

remorsos
não vieram
incluídos.

Ainda bem.

Ninguém gosta
de chorar 
sobre
leite

d
e
r
r
a
m
a
d
o


Nunca deixei os meus arrependimentos ou dúvidas repousarem muito tempo na minha mente. Eles vêm, eu aceito as minhas escolhas e deixo-os  vaguearem por outros sítios. É um hábito que tento cultivar desde que me lembro e que me dá alguma paz de espírito. Mas naqueles dias cinzentos em que as nossas expectativas ficam aquém da realidade só há uma coisa a fazer. Dar o nosso melhor. 

O caminho para uma vida mais simples está cheio de objectivos difíceis de alcançar. Eles dizem que ser minimalista é ter só o essencial, que as experiências são mais significativas do que as coisas e que tudo o que adquirirmos deve estar de acordo com os valores que defendemos. Estes valores são louváveis e acredito que o mundo seria um lugar maravilhoso se nos guiássemos por eles, mas a sua aplicação prática e diária não é fácil.

Eu considero-me uma minimalista mas tenho coisas em minha casa que não são essenciais, ainda há roupa da Zara e da Primark no meu armário e ainda gosto de revelar fotografias e ler livros em papel. Se passasse os meus dias a comparar-me com verdadeiros minimalistas possivelmente morreria de vergonha. A pureza do estilo de vida deles faz o meu minimalismo parecer uma farsa, mas não estou preocupada nem arrependida.

O minimalismo é uma viagem vagarosa onde devemos apreciar o caminho e sentir que as decisões de amanhã vão ser melhores do que as que fizemos ontem. O meu estilo de vida pode ainda não ser nenhum exemplo a seguir mas a minha consciência não poderia estar mais tranquila. A jornada vai ser longa mas estou a gostar demasiado da viagem para a apressar. 


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NEVOAZUL - Uma revista sobre menos e mais



O nevoeiro matinal que paira levemente no ar sem nunca tocar na Terra. Uma bruma em suspensão que descansa sobre as nossas cabeças nos dias frias de inverno e nos dias de quentes de verão antes do céu limpo. A névoa é de um azul acinzentado entre a pureza do branco e os primeiros tons na escala de cinza mas é este equilíbrio que a torna bela. Nem ao céu, nem à terra, nem às nuvens, nem à chuva, mas no meio. O lugar de todas as virtudes.

Esta névoa azul representa o equilibro entre aquilo que somos e o que desejamos ser. Para mim isso significou começar a criar a minha própria revista, uma publicação independente onde a cultura e o minimalismo se entrelaçam com o consumismo e a literatura. Nas suas páginas vão poder encontrar diversos artigos que celebram um modo de vida simples onde se elogia o consumo sustentável, a calma e a criatividade. Tenho trabalhado para que cada artigo, fotografia e desenho seja um convite a um quotidiano equilibrado com mais conversas e menos compras, menos ansiedade e mais passeios, mais conhecimento e menos informação.

A revista terá cerca de 100 páginas, existirá em formato impresso e digital e só sairá duas vezes por ano. O objectivo é apreciarmos os seus conteúdos com calma e ponderação enquanto gratificamos o intelecto e a criatividade e estimulamos o pensamento crítico sobre os hábitos de consumo da sociedade actual. 

Os meus dias têm sido passados a tornar esta revista possível e a certificar-me que todo o processo está de acordo com os valores em que acredito. Ainda há muito trabalho pela frente mas o meu entusiasmo por este projecto é tal que não consegui esperar mais tempo para vos apresentar a NEVOAZUL.
Espero sinceramente que esta publicação se torne tão importante para vocês como é para mim. Entretanto vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que esta revista seja um porto de abrigo, conhecimento e inspiração para quem procura um quotidiano simples mas significativo.

Obrigada

(Já podes comprar a Nevoazul aqui: www.nevoazul.com)
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O que ver, ouvir e ler durante a Fashion Revolution

A morte de milhares de pessoas nas fábricas têxteis de Rana Plaza em Daka, Bangladesh, abriu o debate sobre as más condições existentes nas cadeias de produção de marcas de fast fashion. Três anos depois deste trágico acontecimento, há cada vez mais iniciativas para aumentar a transparência na indústria.
Ao longo deste post partilho alguns filmes, podcasts e artigos sobre as pessoas que estão a tentar pôr a responsabilidade social, o meio ambiente e a sustentabilidade outra vez na moda.


FILME

Com o objectivo de contribuir para uma indústria da moda mais sustentável, The next black: A film about the future of fashion explora o futuro das roupas através do olhar e das opiniões de algumas das marcas e pessoas mais inovadoras da indústria. Será que o consumo em massa vai continuar a aumentar? Ou vamos voltar a comprar productos de qualidade e cuidar daquilo que já temos? Será que o futuro vai estar na roupa inteligente e nas novas tecnologias ou vamos regressar aos métodos orgânicos e tradicionais?
Este documentário de 45 minutos alerta-nos para estes temas através dos olhos de designers, cientistas e ambientalistas que querem tornar a indústria da moda mais interessante, sustentável e inteligente.

Biocouture Ltd, photo © The Next Black, AEG



SÉRIE

A série Sweatshop produzida pelo realizador norueguês Joakim Kleven segue três bloggers norueguesas numa viagem ao Camboja. Os primeiros episódios mostram as bloguers Ludvig, Frida e Anniken a divertirem-se, ignorando que a maior parte da roupa que compram é produzidas naquela cidade por mão de obra escrava em condições desumanas. Mas bastou uma visita às fábricas para as suas opiniões sobre a indústria da moda mudarem. 
A série conseguiu abrir o debate político sobre as más condições de trabalho das cadeias de produção das marcas de fast fashion e alertar para o consumo mais consciente.






VÍDEO

"Eu nasci em 1926 e tenho usado este tipo de vestido desde sempre. Cada símbolo, costura, pedaço de tecido e cada cor diz algo sobre mim (...) Podes ler milhares de histórias nele." No vídeo Desula realizado pelo Andrea Pecora, cerca de dez mulheres desta vila montanhosa em Sardinian continuam a usar o mesmo vestido tradicional que as acompanhou em todas as fases da vida delas, do dia do casamento ao trabalho, da adolescência à maturidade. Um vídeo encantador sobre como a roupa tradicional pode ser mais bonita e significativa do que qualquer moda que possa surgir. 




PODCAST


Já alguma vez te perguntaste quem fez a tua camisola preferida? O podcast Why do you have things? entrevista escritores, designers e artesãos independentes sobre as suas ideias e inspirações ao longo do processo de produção de uma peça. 
Aconselho o episódio com a Zini Edmundson, a editora da revista Knit Wit Magazine, e o episódio com o escritor Marc Bain, sobre consumismo, qualidade e minimalismo na moda.

Maura Ambrose of Folk Fibers in Issue 4, photograph by Josh Goleman



LIVRO

Lucy Siegle é uma das mais conceituadas jornalistas britânicas na área do jornalismo social, da justiça ambiental e do consumo ético. No seu livro To die for - Is fashion wearing out the world? ela investiga e analisa o que realmente se passa atrás das grandes marcas do mundo da moda. A sua curiosidade fê-la viajar por países em desenvolvimento e visitar inúmeras fábricas têxteis para perceber o impacto que o consumo desenfreado da sociedade ocidental tem a nível social e ambiental.




REVISTA

A edição da revista Vestoj sobre slowness fez parte dos meus favoritos do mês de Março mas seria imperdoável não a referir novamente aqui. Com um tom convidativo e inteligente apresenta-nos entrevistas, artigos e excertos literários sobre a importância de abrandarmos e apreciarmos a história, originalidade e beleza de uma peça de roupa.



ARTIGO

A h&m tem sido das marcas de fast fashion que mais frequentemente vemos associada à sustentabilidade e ao comércio justo mas isso pode não ser suficiente. No artigo escrito pelo Marc Bain sobre a campanha World Recycle Week, ele defende que esta iniciativa é um trunfo publicitário sem consequências positivas no impacto ambiental e social da marca. Além disso, a oferta de um voucher de 15€ pela roupa reciclada funciona também como um incentivo ao consumo rápido.

A cantora MIA no videoclipe criado para a campanha World Recycle Week da H&M

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Porque precisamos de uma revolução na moda?




Quando penso em consumo desenfreado há uma imagem que não me sai da cabeça. Uma multidão de pessoas em histeria a gritarem e a empurrarem-se umas às outras enquanto lutam por aquilo que desejam. O cenário parecia similar ao de uma catástrofe mas o motivo para tamanho alarido era simplesmente a inauguração da colecção da Balmain para a H&m. 

Estas colecções surgiram como uma forma de democratizar a moda, dando às massas a possibilidade de comprarem uma peça de designer por um preço inferior. Infelizmente, o preço parecia ser a única coisa que importava. Ninguém se preocupou em ver a colecção, apreciar aquilo que o designer tinha criado ou pensar na razão porque gostariam de ter uma peça da Balmain no seu armário. O facto das Kardashians usarem roupa da da marca foi motivo suficiente para a colecção esgotar nos primeiros dias.

Este pequeno acontecimento consegue retratar de forma clara a razão porque precisamos de uma revolução na moda. O preço e a influência das celebridades parece ser hoje mais valorizado do que o trabalho do designer ou a qualidade do material. Antes existiam colecções de primavera/verão e de outono/inverno e as compras organizavam-se em função das estações. Havia costureiras e alfaiates, os buracos das meias eram remendados e havia uma maior preocupação com a qualidade e a durabilidade de uma peça.
Agora a moda é inconstante, imprevisível e incansável. Semanalmente chegam novas colecções às lojas e novas lojas às ruas. Os preços nunca foram tão baixos e a qualidade é a menor das preocupações. Hoje ninguém se importa se uma camisola da Primark tem a costura torta ou o colarinho descosido porque o preço justifica as imperfeições. Vivemos na sociedade dos restos, das peças com defeito. A diferença é que não estamos a comprar em lojas de segunda mão, nem directamente às fábricas. Estamos propositadamente a pagar por productos de baixa qualidade e há pessoas a sofrer e a morrer por isso. Estamos assim tão desesperados em comprar algo novo que a única coisa que interessa é o preço marcado na etiqueta? Como podemos exigir qualidade e transparência às marcas de fast fashion se eles sabem que o valor mais baixo vence sempre?


O que aconteceria se os consumidores recuperassem a sua dignidade 
e exigissem às lojas roupas melhores?

O ritmo teria de abrandar, 
o preço subiria e não haveria novidades semanalmente.
Mas seria isso assim tão mau?


As idas ao shopping nos fins de semana e as épocas dos saldos deixariam de ser eventos em si mesmo. Talvez as pessoas começassem novamente a ir aos museus e a passear nos jardins. O consumo voltaria a ser feito por necessidade e os preços mais elevados iriam obrigar-nos a comprar apenas aquilo que precisássemos e gostássemos. 

Infelizmente isto ainda é uma espécie de utopia. Passados quatro anos da morte de mais de mil pessoas nas fábricas em Bangladesh, a indústria da moda continua a produzir roupa a uma velocidade estonteante, desprezando os direitos humanos e o meio ambiente. A nossa responsabilidade como consumidores e seres humanos é certificarmo-nos que aquilo que vestimos não custou a vida de ninguém. É preciso sermos curiosos e questionarmo-nos sobre quem fez as nossas roupas e em que condições é que vivem. Só ao mostrarmos o nosso interesse em conhecer as pessoas por detrás das marcas é que vamos conseguir melhorar as condições das cadeia de produção, a qualidade dos materiais e o bem estar humano e ambiental.

Amanhã começa a Fashion Revolution week, uma semana onde somos convidados a questionar a indústria da moda e o processo de produção daquilo que vestimos.  Eu vou me juntar à causa e publicar diversos posts sobre a importância do consumo ético, da moda sustentável e do minimalismo ao longo desta semana.  É altura da indústria da moda voltar a destacar-se pela originalidade, qualidade e criatividade e nós somos os responsáveis por fazer isso acontecer.
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A pressa


A virtude de ser paciente foi roubada
 e agora pertence à pressa
 Ela corre para enganar o tempo
e
ri-se
do seu feito. 

Os seus sapatos estão sempre à porta,
prontos para serem calçados em precisamente

1
2
3
4
 segundos
Quem tem tempo para mais?

Atravessa a rua
sem nunca parar
sem nunca a apreciar

 Neste jogo
o seu único adversário
são os minutos,
mas não faz mal.

Ela não tem medo de nada ´
desde que não a obriguem a abrandar. 
E contra isso ela reza todas as manhãs 
quando os seus cabelos dançam em favor do vento, 
e os seus pés cortam caminho
numa multidão tão frenética como ela.
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Diário de Fevereiro e Março



Podia começar este texto a falar sobre as particularidades do mês de Fevereiro, um mês com poucos dias que nos faz lembrar que o tempo passa depressa, mas, para o melhor ou para o pior, estes 29 dias estiveram repletos de decisões, mudanças e planos. Tarefas e prazeres que me distanciaram tanto da realidade que, quando me apercebi, Fevereiro já era Março.


V I A G E M

Em Fevereiro planeou-se, em Março concretizou-se. No início deste mês entrei num avião rumo a Milão, o início de uma viagem por cinco países em oito dias. A maior parte dos dias foram passados a andar de comboio pela Áustria, onde me apaixonei pelas montanhas nevadas, pelo azul névoa do céu e pela calma das cidades. O frio foi sempre uma constante mas também o foi a aventura. Houve gargalhadas contagiantes, comidas deliciosas e sítios de cortar a respiração. Foram apenas oito dias mas pareceram oito meses. No momento de voltar a nostalgia não me largou. Eu estava cheia de histórias para contar mas ainda não estava pronta para regressar.


G I R L S

Raramente gosto logo de uma série ou de um filme. Primeiro estranho as personagens, a linguagem, os cenários, só depois é que começo a familiarizar-me com os episódios. A série Girls não foi excepção. Apesar de hoje ser uma das minhas preferidas, nem sempre foi assim. Depois de ver e rever a série mais de que uma vez comecei a identificar-me cada vez mais com as situações retratadas. com o desejo das personagens de seguirem os seus sonhos e com a dificuldade em ser jovem nos dias de hoje. Fevereiro marcou o início de uma nova temporada de Girls e eu já revi os episódios que saíram duas vezes. Não é por acaso que a repetição é o meu recurso estilístico preferido.


L I V R O S 

Eu sou uma apologista de que a realidade é mais interessante do que a ficção. Talvez porque a veracidade de uma história é o que a torna fascinante. Quando entro numa biblioteca ou livraria, a secção para onde me dirijo é sempre a das biografias. Há quem ache que ler sobre a vida de outra pessoa não é mais do que espreitar o seu diário ou ler a opinião de alguém sobre ela. Para mim, uma auto-biografia é uma oportunidade de conhecer um pouco mais sobre algum que me fascina. Os últimos dois livros que li encaixam na perfeição nesta categoria. Comecei com o livro What I Talk About When I Talk About Running . Um livro de memórias escrito pelo Haruki Murakami sobre o seu hábito de correr e escrever. Cada página do livro despertou-me desejos de movimento. A persistência do escritor e a sua força de vontade em concretizar os seus objectivos são um exemplo de persistência que parece rara nos dias de hoje. O mesmo se passou com o livro M Train da Patti Smith, a minha leitura de Março. Talvez tenha sido por ler este livro enquanto viajava de mochila às costas pela Europa e fazia pequenas sestas no comboio, mas as memórias da escritora fizeram-me lembrar um sonho, como se estivesse dentro da mente dela e os pensamentos vagueassem entre o presente, o passado e o futuro. Uma história sem tempo, nem lugar, que me deixou com vontade de passar os dias em cafés a escrever poesia em guardanapos.


R E V I S T A S

Estávamos em meados de Fevereiro quando recebi em minha casa a Vestoj, uma revista sobre moda escrita por professores universitários e investigadores da área sobre as relações das pessoas com a moda e a relação da moda com a nossa identidade.  Cor de céu azul e com um formato idêntico ao de um livro, eu finalmente estava a segurar a revista porque ansiei durante tanto tempo. Na capa havia uma pequena nota escrita à mão, presa por um pequeno clipe preto, onde se lia "Dear Inês, We sincerely hope you enjoy the reading! Love, Vestoj". A revista tinha chegado a mim há menos de dez minutos e já me estava a surpreender. Neste momento vou a meio da leitura e estou sem pressa de a terminar. O tema da edição que comprei é slowness e quero fazer juz aos seus artigos. Além disso, esta é possivelmente a revista mais inteligente e interessante que já li sobre moda. Lá, a publicidade é proibida e os leitores são convidados a serem curiosos e a verem a moda para além das lentes do consumo. 


B I S C O I T O S


Sábado passei a tarde ao sol com uma tshirt vestida enquanto ajudava a minha família a fazer biscoitos para a Páscoa. A tarde foi atarefada mas passou-se de forma calma por entre flores, lenha para o forno e conversas pausadas. O calor do sol e do forno criou o ambiente perfeito para criar os biscoitos dourados que me lembro de comer desde sempre. As minhas calças pretas ficaram repletas de farinha, os dedos de massa e a mesa de açúcar mas no final do dia essas foram as melhores lembranças. O mês acabou tão bem como começou.


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A ler - Ornamento e Crime de Adolf Loos

"Os sapatos estão cobertos de ornamentos. Decorados por todas as partes com padrões em forma de ziguezague por cuja execução o sapateiro não foi pago. Vou ao sapateiro e digo-lhe: "O senhor quer 30 coroas por um par de botas, mas pago-lhe quarenta." Ao dizer isto, o sapateiro sente-se no paraíso. Agradecer-me-á com trabalho e materiais cuja qualidade fica bem acima do preço extra que lhe paguei. Sente-se extasiado. A sorte raramente lhe bate à porta. À sua frente está um homem que reconhece o verdadeiro valor do seu trabalho e não questiona a sua honestidade. Na sua cabeça só consegue ver os sapatos já acabados à sua frente. Sabe onde pode encontrar o melhor couro e qual o melhor empregado em quem confiar para um trabalho bem executado. Sabe que os sapatos serão cobertos pelo maior número de padrões em forma de ziguezague. Então eu digo-lhe: "Só ponho uma condição: os sapatos devem ser inteiramente lisos, sem decorações." Com isto, o sapateiro sente que foi escorraçado do paraíso e enviado para o inferno. Terá menos trabalho para fazer mas roubei-lhe todo a alegria.
Proclamo aos patrícios. Tolero usar ornamentos no meu corpo se isso trouxer a felicidade ao meu próximo. Nesse caso, seria um motivo de felicidade para mim próprio. Suportarei os ornamentos do cafre, do persa, da camponesa eslovaca, do meu sapateiro, porque nenhum deles tem outro remédia para alcançar o auge da sua existência. Depois de um dia de trabalho regressamos a casa e relaxamo-nos ao som de Beethoven ou de Tristão. O meu sapateiro não pode fazer isso. Não tenho o direito de lhe roubar a alegria porque não tenho nada para lhe oferecer em troca. (...)
A ausência de ornamentos conduziu as artes a um patamar inesperado. As sinfonias de Beethoven nunca poderiam ter sido escritas por alguém que usasse seda, cetim e rendas. Quem se veste hoje em dia com cetim não é um artista, mas antes um palhaço ou um pintor decorador de casas. Tornámo-nos mais subtis, mais refinados. No meio da multidão, as pessoas sentem necessidade de se distinguir umas das outras através das cores distintas que usam. O homem moderno necessita de roupa como uma máscara. A sua necessidade de individualidade tornou-se tão incrivelmente imperiosa que já não se pode ser espiritual. O homem moderno usa ornamentos de culturas antigas e estrangeiras à sua distinção. Para as suas invenções e descobertas, concentra-se em outras coisas."


Excerto do artigo Ornamento e Crime de Adolf Loos, 1908

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Como comprar de forma ética?

Compra menos
mas melhor

Não vejas preços
vê qualidade

Segue os teus valores
e sê selectivo


Consumismo ético, comércio justo, responsabilidade social e sustentabilidade. Palavras longas com significados complexos. 
Até há pouco tempo estas palavras funcionavam como sinónimos para mim e as suas definições não passavam de conceitos abstractos na minha cabeça. Tudo o que sabia era que simbolizavam o bem, quer fosse do ambiente, das pessoas ou dos productos. Enquanto essas palavras estivessem associadas às minhas compras ninguém me podia censurar, afinal, eu estava a salvar o mundo!
À medida que o meu interesse pela temática do consumismo ia aumentando, apercebi-me que estes termos mereciam mais da minha atenção e comecei a estudá-los. Percebi que apesar dos termos serem similares, eles referem-se a diferentes áreas de actuação e só depois de os conhecer verdadeiramente é que podia melhorar os meus hábitos de consumo.

Falar em ética e aplicá-la ao consumismo é dar prioridade aos valores que defendemos. Se somos contra a escravatura, a mão de obra infantil e os testes em animais isso implica deixar de comprar productos que apoiam esses acções e escolher marcas que suportam os seus trabalhadores e defendem os direitos dos animais. Comprar productos sustentáveis ou com o selo do comércio justo é uma forma de consumir éticamente com a segurança de que estamos a apoiar causas sociais e ambientais. Não é por acaso que esta certificação é considerada a grande vitória do consumismo ético, estimulando a produção de bens de qualidade e apoiando agricultores em países em desenvolvimento. O suporte dado aos productores é uma das principais razões porque o consumo justo pode ajudar a melhorar o estilo de vida de muitas pessoas. A riqueza mundial tem estado concentrada numa pequena parte da população e os agricultores responsáveis pela produção do algodão, açúcar ou cacau são muitas vezes prejudicados. As grandes corporações ficam com o lucro das vendas enquanto que a mão de obra vive em situações de extrema pobreza. O comércio justo garante que é oferecido um valor mínimo aos productores por aquilo que produziram mesmo quando os preços do mercado descem e os productos não são vendidos. Com este sistema, os agricultores são sempre pagos por aquilo que produzem, fazendo com que o dinheiro comece finalmente a circular fora do ciclo vicioso das grandes corporações capitalistas.

Para sabermos se uma corporação é digna do nosso apoio devemos analisar a responsabilidade social da empresa, isto é, se se preocupa com o bem-estar dos seus trabalhadores, com a sua influência na comunidade e com a preservação do meio ambiente. Isto é alcançado através da implementação de políticas de sustentabilidade que visam uma maior transparência sobre o modo de funcionamento da empresa.

Ao contrário do consumo ético positivo, o consumo negativo apela ao boicote de companhias e empresas com valores duvidosos. Organizações como a Campaign for Safe Cosmetics (CSC) têm alertado sobre diversas situações de risco e já conseguiram mudar a conduta de várias empresas. Uma das suas últimas campanhas foi contra a marca Johnson & Johnson devido à utilização de químicos nos champôs para crianças. A marca Nestlé também foi obrigada a mudar a sua forma de actuação depois da Greenpeace descobrir que os responsáveis pelo óleo de palma usado nos seus produtos estavam a contribuir para a deflorestação da Indonésia, a destruição dos ecosistemas e a extinção dos orangotangos. 
Anna Lappe, defensora da sustentabilidade alimentar, diz que cada vez que gastamos dinheiro estamos a submeter um voto no tipo de sociedade em que queremos viver. É por essa razão que é importante sermos consumidores conscientes. Fazer compras não é um passatempo capitalista, é uma escolha com consequências reais que tão depressa podem salvar o mundo como o condenar.

Desde que optei pelo estilo de vida minimalista tenho feito cada vez menos compras. Como passo mais a fazer o que realmente gosto, as compras ficam sempre para segundo plano e sinto-me cada vez mais feliz com aquilo que já tenho. Ainda assim o tempo quente está a chegar e sei que vou precisar de substituir algumas peças de roupa e umas sandálias que se estragaram o ano passado. Podia ir apenas à Primark ou a outra loja de fast fashion e comprar tudo o que precisava mas isso estaria contra os valores que defendo. Apoiar o comércio justo e o consumo ético não é  apenas uma decisão filantrópica é também uma forma de valorização pessoal. Escolher um producto de qualidade que adoramos e que vai durar vários anos é a melhor coisa que podemos fazer pelo nosso eu minimalista. Esse tipo de produtos e roupas podem ser difíceis de encontrar mas graças à internet é possível descobrir algumas marcas éticas, sustentáveis e amigas do ambiente com peças de qualidade que estão cheias de histórias para contar



A marca Everlane distingue-se pela sua transparência corporativa e pelo design simples, minimalista e intemporal dos seus productos. No site da marca é possível ver onde foi feito cada produto e o custo de cada material, desde o fecho até ao algodão. Uma das minhas coisas favoritas da Everlane é a sua pequena mas essencial selecção de produtos. Nada neste site parece depender de modas passageiras. 
Infelizmente a marca só está disponível nos EUA e no Canadá.




É quase impossível ficar indiferente à história desta marca depois de ler a sua missão. 100% dos productos da People Tree são provenientes do comércio justo, ou seja, quer estejas a comprar uma camisola, umas calças ou umas meias estás a ajudar o ambiente, famílias e comunidades que ajudaram a criar esse roupa. O site tem também uma secção chamado Meet the Maker onde podes ver vídeos sobre os vários artesãos responsáveis pela criação dos produtos da People Tree. 





A Glimpse auto-intitula-se como uma marca de moda humanitária contra o tráfico humano e o título não lhes podia ficar melhor. Apesar de serem uma marca pequena eles acreditam que podem mudar o mundo pouco a pouco e dar esperança àqueles que já quase perderam a fé na humanidade. A sua principal luta é contra o comércio sexual de mulheres na Índia, de que são vítimas cada vez mais mulheres todos os anos. O pior é que mesmo depois de terem sido "libertadas" estas mulheres são marginalizadas pelo seu passado e não lhes são dadas novas oportunidades. Para contrariar esta triste realidade a marca Glimpse dá educação e formação profissional a estas mulheres para poderem trabalhar na Glimpse onde lhes é garantido um ordenado, boas condições de trabalho e uma oportunidade para deixarem o passado para trás.



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Coragem em dias de tempestade

A
chuva
lá fora
não 
me cai
bem


Acordo e adormeço incontáveis vezes naqueles minutos que antecedem a hora de levantar. Ouço a chuva a bater na janela e, num acto de infantil cobardia, escondo-me um pouco mais debaixo dos lençóis. Quando o relógio assinala o momento decisivo para retirar o meu corpo da cama, eu esfrego os olhos, ainda ensonados, e encaminho-me vagarosamente para a janela. Está um dia perfeito para ficar em casa. Chove sem parar, o vento penteia as árvores e a claridade não promete aparecer. O céu está de um cinzento suave que nos diz que já não é noite mas que o dia irá ser escuro. 
Com um chávena de chá e uma manta a cobrir os ombros, aproveito os últimos minutos antes de enfrentar a tempestade. De um lado estou eu, o vapor do chá de maça e canela, o conforto do lar. Suspiro enquanto desenho símbolos que nada significam no vidro ligeiramente embaciado. Oh, o frio da rua passou para as pontas dos meus dedos. Agora vai ser impossível arranjar coragem para sair.

Isto está sempre a acontecer. Da segurança das quatro paredes que me rodeiam eu glorifico as tempestades como se fossem uma deusa. Aprecio a elegância dos relâmpagos no céu e o suave som da chuva no chão, mas, no momento de sair, o conforto fala mais alto, tão alto que a coragem não é mais do que um sussurro. Uma simples sugestão de algo que não queremos concretizar.

Ainda num estado de preguiça disfarçada, penso em tudo o que o conforto me impediu de fazer. 

As coisas que
não
arrumei
Os sítios onde
não
fui


Aquilo que não mudei. Ainda assim, aqui estou eu, absolutamente encantada com o tempo lá fora mas com demasiado receio do que pode correr mal quando o enfrentar. O cabelo molhado, o guarda-chuva desfeito, o cachecol a voar do meu pescoço. Nada bom pode acontecer lá fora, felizmente ainda tenho mais uns minutos antes de sair. Arrumo as coisas que estavam abandonadas em cima da minha mesa, lavo a chávena já sem chá, pego no mapa da minha próxima cidade e mudo a forma como tinha o meu cabelo. 

Despeço-me
do
conforto

A verdadeira
tempestade

Para a minha
coragem

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